terça-feira, 7 de outubro de 2014
Resenha #11 – O apocalipse dos trabalhadores
No mês passado eu li O apocalipse dos Trabalhadores, do autor Valter Hugo Mãe.
Quem já acompanha o blog sabe que eu conheci o VHM há pouco tempo com a leitura de A máquina de fazer espanhóis e logo que pude eu comprei outros livros do autor e este é um deles.
Acho ele um autor contemporâneo sensacional. Valter Hugo Mãe é angolano, mas vive desde pequeno em Portugal. As edições que estou lendo dele são editadas pela Cosac Naify são escritas em português de Portugal , mas isso é o mínimo perto da escrita dele que é somente em minúsculas, não tem travessão ou aspas nas falas...mas acredite, não é difícil, você pega o jeito da leitura.
Esse livro não me conquistou de cara, foi uma experiência de leitura diferente da Máquina de fazer espanhóis, apesar de ter marcado passagens logo de início, demorei um tempo para entrar na história.
Há duas personagens principais – Maria da Graça e Quitéria, elas são diaristas, em Portugal, chamadas de “mulher a dias”. Vamos acompanhar a vida delas enquanto trabalhadoras, enquanto classe operária e cada uma tem sua história, que se entrelaçam pelos conselhos que uma dá a outra.
Maria da Graça é casada e seu marido trabalha com navios, passando muito tempo fora de casa. Ela mantém um relacionamento amoroso com o patrão muito mais velho, é uma relação que chega a beirar o assédio sexual, mas depois ela descobre que tem um sentimento nessa relação. Ela não gosta mais do marido e faz coisas para que ele fique longe dela dentro do pouco tempo que ele está em casa.
Em determinado momento, algo trágico (trágico mesmo) vai ocorrer a esse patrão e a vida de Maria da Graça vai mudar bastante.
O livro traz umas nuances sobre céu e inferno e ela sonha muito com isso, principalmente com São Pedro, como seria a entrada dela no céu e, em cada cena, isso vai ocorrer de uma forma diferente.
Quitéria tem diversos relacionamentos amorosos, mas vai acabar se apaixonando por Audrey, um rapaz bem mais novo que veio da Rússia e que mal fala o português. Ele saiu de seu país em busca de melhores condições de vida em Portugal, mas nem tudo são flores no novo país. Quitéria passa a ser uma espécie de “família” pra ele, que deixou os pais na Rússia e ele não tem notícia dos mesmos há bastante tempo, aliás, os pais do Audrey são personagens secundários muito interessantes.
Nas horas vagas e para complementar a renda, Maria da Graça e Quitéria são carpideiras (pessoas contratadas para chorar em velório de desconhecidos) e essas são cenas às vezes trágicas, às vezes engraçadas, mas muito interessantes.
As duas amigas se consideram putas, e o livro contém diversas cenas de sexo, mas todas com um propósito.
Em todo tempo encontramos metáforas comparando máquinas ao trabalho braçal dos trabalhadores, e o sexo aparece como algo mecanizado, de necessidade dos trabalhadores.
É novamente um livro sensacional do Valter Hugo Mãe, reitero que demorei um pouco para me encontrar na história, mas a escrita é sensacional, a história é muito bem contada, assim como a reflexão que ela traz, dos trabalhadores como classe operária, comparados a máquinas e um pouco ignorantes (em contraposição com o patrão de Maria da Graça que é muito culto). Mas também mostra e reaviva o sentimento desses trabalhadores, que são e devem ser tratados muito além de máquinas.
Pretendo continuar lendo mais obras do autor!
Título: O apocalipse dos trabalhadores
Autor: Valter Hugo Mãe
Origem: Portugal
Editora: Cosac Naify
Ano: 2013
N. de páginas: 185
Nota: 04
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